Posts de Agosto, 2008

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Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade Parentes, fora!

Agosto 27, 2008

Cláudio Lembo
De São Paulo

Passaram-se mil trezentos e vinte e três anos. É muito tempo. Segundo a História, o termo nepotismo foi concebido no papado de João V, no ano de 685.

Amigos dos parentes – especialmente sobrinhos – os papas não tinham nenhum pudor em nomeá-los para exercer funções nos diversos domínios pontifícios espalhados pela Itália.

Ampliou-se o costume. Encontrou campo fértil na colonização do Brasil. A velha prática papalina, presente em toda a Idade Média, atingiu a América portuguesa por inteiro.

Na certidão de nascimento, redigida por Pero Vaz de Caminha, o nepotismo se encontrava explicitamente expresso. A transferência do genro era solicitada pelo escrivão ao Rei D.Manuel.

Em sociedade de perfil rural, os laços familiares e o compadrio constituíam-se em caminho para a obtenção de benesses. Estas se configuravam em nomeação para os mais diversos cargos públicos.

O nepotismo implantou-se como hábito nacional. Todos querem uma boquinha. Aos familiares tudo. Na falta de laços de sangue, basta aproximar-se do poderoso do momento. Tudo será resolvido.

Não se trata de um costume apenas latino ou ibérico. É mundial. Os ingleses e os norte-americanos foram usuários da prática intensamente. Abraçaram o clientelismo de maneira desmedida.

William Marcy, em 1832, não teve constrangimento em afirmar “ao vencedor pertencem os despojos”. Nascia a partilha de despojos – spoils system: os cargos públicos distribuídos aos amigos do vencedor.

Correu tempo até que a prática fosse cerceada no mundo anglo-saxão. Resta ainda um largo tráfego de influências. Este permite interpretação favorável das leis. Autorizações administrativas. Privilégios tarifários.

Por aqui, o costume estendeu-se por longo tempo. Encontra-se tão arraigado. Não podia ser extirpado sem dor. Os constituintes de 1988 procuraram conferir diretrizes.

Elaboraram o artigo 37 da Constituição. Bom dispositivo. A ponta para os princípios norteadores da atuação dos poderes da República. São regras de bem viver: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Apesar de auto-aplicável, esta norma constitucional foi relegada ao esquecimento. No Legislativo, os gabinetes dos parlamentares acolhem familiares e agregados.

O Executivo usa e abusa dos cargos de confiança. Os novos agregados – filiados ao partido vitorioso no último pleito – tomam posições com a avidez de um camelo em seguida à travessia de longo deserto.

Não escapou desta voracidade patrimonalista o Poder Judiciário. Foi tanta que o Conselho Nacional de Justiça editou resolução específica sobre o tema.

Temerosa, a Associação Brasileira dos Magistrados – órgão de representação dos juízes – ingressou perante o Supremo Tribunal Federal com ação declaratória de constitucionalidade.

Por quê? Segmentos do Judiciário não respeitaram a determinação constitucional e, por vias oblíquas, procuraram considerar inconstitucional a Resolução do CNJ sobre o tema.

O Supremo Tribunal Federal – na última quarta-feira, 20 – colocou ponto final no assunto. Considerou a norma do Conselho constitucional e, assim, baniu o nepotismo dos quadros do Judiciário e, por extensão, dos demais Poderes.

Demorou e muito. É bom começo, porém. O princípio, agora reafirmado, por ser norma constitucional, necessita ser atendido pelos demais Poderes.

As mudanças nos costumes se aceleram. As velhas práticas originárias de nossos antepassados vão merecendo superação. Assiste-se ao choque entre os velhos costumes e a ética reformada.

É bom recordar que, talvez por motivos políticos, entre os primeiros a se lançar contra o nepotismo, se encontra Lutero. Acoimou a prática de nomear parentes como geradora de uma casta eclesiástica.

Os princípios republicanos, aos poucos, ingressam na administração pública. Já não sem tempo. A coisa pública é de todos. Não se pode perpetuar como coisa doméstica.

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
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Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade convida você a assistir as duas partes de: A ilha das Flores

Agosto 5, 2008

Assista as duas partes e depois abordaremos melhor esse assunto.

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Um julgamento para a história universal

Agosto 2, 2008

A “catástrofe natural” de Karadzic

“Eu estou disposto a defender a mim mesmo como me defenderia de qualquer catástrofe natural”, disse Radovan Karadzic ao juiz Alphons Orie, ao reafirmar sua decisão de não recorrer a advogados, durante o processo que deverá enfrentar no Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII). Karadzic, que estava foragido havia 13 anos, foi capturado na segunda-feira, 21 de julho, em Belgrado (capital da República Sérvia). Nove dias depois, na manhã do dia 30, chegava à prisão das Nações Unidas em Scheveningen, Holanda, onde deve permanecer ainda por um bom tempo.

Na tarde de quinta-feira, 31 de julho, ele se apresentou formalmente ao TPII. O Tribunal foi criado para julgar os crimes cometidos na também chamada “guerra dos Bálcãs”. Península do sudeste da Europa, a região foi transfigurada pelos conflitos que marcaram os primeiros anos pós-Marechal Tito, que durante 35 anos (até 1980) comandou a Iugoslávia. Na ausência de um líder que, como Tito, fosse capaz de manter o país unido, a divisão iugoslava foi consumada sob derramamento de sangue, em crimes contra a humanidade como se havia cometido durante a Segunda Guerra Mundial. Em nome de um projeto megalomaníaco, também conhecido como “Grande Sérvia”, nacionais daquele país decidiram que era preciso “limpar etnicamente” a região, livrando a de todos os cidadãos de outras origens. O genocídio contra muçulmanos da Bósnia e albaneses do Kosovo são a marca daqueles horrores.

Em 2006, quando da morte de Slobodan Milosevic – o mais importante nome da lista dos acusados – o TPII parecia ter perdido para uma fatalidade sua mais proeminente batalha: Milosevic, comandante maior das guerras iugoslavas e uma das criaturas mais perversas da História, sofreu um ataque cardíaco fulminante, enquanto aguardava, na prisão “Club Med do Mar do Norte”, a conclusão do processo contra a sua pessoa, que já se arrastava por quatro anos. Embora outros criminosos de guerra já respondessem por seus atos, figuras de destaque como Radovan Karadzic continuavam foragidas. Nem mesmo a recompensa de US$ 5 milhões, para aquele que revelasse seu paradeiro, foi capaz de encerrar a caçada. Ao que parece, somente a partir da cooperação do serviço de inteligência sérvio, oficialmente a partir de dezembro do ano passado, foi que sua captura tornou-se mais próxima da realidade. Karadzic passara todo o tempo em Belgrado mesmo, atendendo pacientes de medicina alternativa, andando de ônibus, indo nadar na piscina pública. Para a façanha, ele contou com um disfarce que incluiu óculos espessos e uma longa barba branca. Os detalhes são importantes, pois definem a imagem de sua segunda encarnação nesta mesma vida, o doutor Dragon Dabic.

Em 21 de julho, Dabic seguia para algum lugar, num ônibus, quando foi abordado por policiais que lhe perguntaram por Karadzic. Um telefonema para sua família, interceptado pelos agentes, deu a deixa para o flagrante. Ao tentar reagir, o tido como responsável pelo massacre de Srebrenica – quando civis sob custódia da ONU foram dizimados pelas forças sérvias – foi preso e levado para um outro destino, onde permaneceu “incomunicável por três dias, em mãos de desconhecidos”, como se queixou ao juiz Orie, na sessão do dia 31, programada para a leitura da peça de sua acusação, que acabou sendo adiada para o dia 29 de agosto.

Diante da Justiça, Radovan Karadzic assumiu mais uma personalidade, a do “homem de bem” cujo erro mais grave foi ter entrado num acordo com uma autoridade americana. Richard Holbrooke, o antigo emissário dos Estados Unidos na região, teria prometido que o mundo esqueceria Karadzic, caso ele esquecesse de si mesmo. Assim, ele assumiu uma nova identidade, nova vida, nova casa. Seu aprisionamento, acusou, “foi uma quebra do trato” – uma ação ilegal, compreenda-se.

Embora se mostrasse amuado, injustiçado e até mesmo inclinado ao que poderia ser classificado de “falsidade” – fez ressalvas respeitosas à pessoa de Alphons Orie, ao mesmo tempo em que dizia não ter interesse em ouvir o que ele tinha para dizer – em ao menos um ponto Karadzic pareceu aliviado. Quando perguntado se havia alguém que devia ser avisado de seu paradeiro em Haia (sede do TPII), ele respondeu galantemente:

- O senhor não vai acreditar, mas não há uma só pessoa neste mundo que não saiba que eu estou aqui.

Para os sobreviventes dos massacres atribuídos a Radovan Karadzic a declaração soou como um bálsamo.