
Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade conversa com “Seu Jorge” Veja a entrevista… breve postaremos o aúdio…
Julho 25, 2008Office-boy, marceneiro, borracheiro. Alguns anos se passam, chega o sucesso. De público e de crítica. Nova profissão: músico e compositor. Com ela, novos desafios. E o reconhecimento.
Seu Jorge está num quarto na cidade de Aquiraz, no Ceará. Relaxa no conforto de um parque aquático antes de embarcar para São Paulo. Senta para brincar com as duas filhas. O telefone toca. A brincadeira é interrompida. Segue outra entrevista.
- Vambora.
Hamilton Rodrigo Araújo Freire de Andrade conversou com Seu Jorge por telefone antes da apresentação que o músico fará nesta sexta-feira, no Citibank Hall, na capital paulista. O show faz parte da turnê de divulgação do álbum América Brasil, de 2007.
Nos meses de maio e junho, o cantor realizou uma série de concertos internacionais para divulgar o disco. Passou por Estados Unidos, Inglaterra e Espanha. Deste último, trouxe uma lembrança inconformada.
- Na hora do almoço, tudo fecha. Na hora do almoço! Tudo fechado! Não tem cabimento isso, velho…
Nas linhas que se seguem, o carioca também fala sobre música, cinema, família. Diz não ter medo de perder o contato com o público depois da popularidade.
- Às vezes o concerto tá cheio e eu tô lá na porta tomando umazinha com todo mundo antes do baile começar. Não muda nada, né?
Ex-morador de rua, Jorge fala ainda do Brasil e dos brasileiros. Das classes altas e baixas. De gente importante sendo presa:
- Tem uns ricos dançando também. O (banqueiro Salvatore) Cacciola foi trazido de volta e vai sentar uns treze anos – diz.
Leia a seguir a entrevista com Seu Jorge:
Hamilton – O que esperar do show desta sexta-feira?
Seu Jorge - Olha, velho, a idéia é a seguinte: fazer uma grande celebração. A gente vai tocar as músicas desse disco e as coisas que as pessoas já conhecem. Pra gente, que quase não toca aqui, é uma celebração. É muito simples, é só música. Não tem efeito especial nem nada de mirabolante, nada demais.
É a música pela música…
É a música, a gente vai fazer um som lá para a galera que quiser ouvir.
Você está em primeiro lugar na parada do Rio de Janeiro e em segundo na de São Paulo. E você tem uma característica sempre lembrada pelos fãs, que é o envolvimento com o público. As pessoas dizem que te vêem andando de bicicleta pelas ruas no dia dos shows, andando por aí numa boa. Com o aumento da sua popularidade, teme perder esse contato e se descaracterizar?
Não, porque eu continuo fazendo as mesmas coisas. Às vezes o concerto tá cheio e eu tô lá na porta tomando umazinha com todo mundo antes do baile começar. Não muda nada, né? Essa é a minha profissão, a minha mensagem é fazer música para todo mundo que gosta de música. Sempre que, na medida do possível, eu puder encontrar com as pessoas e ter um bom papo…
Certo….
Nós estamos num momento, irmão, em que o país parece que quer se desenvolver, crescer, está começando pelo menos a ter um olho internacional voltado para si. Hoje mesmo saiu uma notícia sobre o crescimento na geração de emprego. Isso é o reflexo de uma situação econômica nova, de uma moeda um pouco mais forte, de uma política exterior mais estabilizada – apesar de haver turbulência, apesar de haver toda uma crise mundial e o mundo estar uma cagada. É importante agora estarmos mais abertos, olhando cada um na cara do outro, estimulando o desenvolvimento da coletividade. Quem é da música, da arte, da comunicação tem que estar atento a essa mudança. Tem uma geração nova chegando. O garoto de dez anos daqui a pouco tem vinte e começa a pensar, julgar, votar. A gente tem que deixar uma mensagem positiva de união e desenvolvimento. E nada como encontrar as pessoas para poder falar dessas coisas e bater esse papo.
Você estava trabalhando num documentário sobre o trabalhador brasileiro, certo? Como está isso?
Não é exatamente sobre o trabalhador brasileiro. Na verdade, o que a gente queria fazer é aproveitar as imagens que a gente fez na turnê no Brasil do ano passado. Ocorreu de a gente estar junto do trabalhador, cantando aquela canção, e ocorreu de encontrar as pessoas no nosso entorno. E aí entrevistamos várias pessoas para ver como elas pensam, o que elas pensam do seu trabalho, se está feliz ou não, o que ela gostaria de fazer, quais os sonhos. Curiosidades de um povo. Eu queria saber disso em diversos lugares do Brasil por onde eu passei e a gente acabou filmando esses depoimentos. Agora estamos atrás de uma narrativa para contar essa experiência. Arrumando isso, a gente pensa em inserir num DVD – até mesmo do América Brasil, quem sabe?
O América Brasil, quando surgiu na minha cabeça, era um disco para atender o público brasileiro, já que eu não tinha um disco de carreira. Tinha um álbum com a Ana Carolina, que trouxe um público novo. Ela é, como todos nós sabemos, graças a Deus, uma grande cantora e uma artista consagrada. E eu fiquei muito popular com as pessoas mais simples com esse disco. Ele tocou nas ruas, nas lojas, nas rádios. Então, esse público novo que não me conhecia, ele ficou muito curioso. O América Brasil faz uma revista, porque ao mesmo tempo em que ele fala um pouco da minha intimidade e da minha vida, ele tem essa coisa de ter um ponto de vista sobre o Brasil, de como eu estou entendendo as coisas agora.
Você disse numa entrevista ao Jô Soares, brincando, que a classe média alta é “o topo da cadeia alimentar”. Aproveitando o mote, como vê a situação do país hoje?
Cara, eu acho que o país tem um problema de distribuição de renda e coisas assim. Mas eu acho que o Brasil tá querendo crescer, se desenvolver, sabe? Tô sentindo o desenvolvimento pintando. Agora, a gente precisa se preparar para esse país. Eu acredito que isso tudo tem que ser baseado na criatividade desse povo, que vai aprender a se organizar por si próprio, como no carnaval, fazendo uma analogia bem simples. Enquanto houver a fome e a indiferença – que eu acho que são as maiores violências desse país – vai haver doença, barbárie, muita coisa ruim acontecendo. Enquanto não entendermos isso, a gente vai penar. Muita gente vai pagar.
Hoje há uma grande comoção porque um banqueiro foi algemado, mas quando acontece a mesma coisa com uma pessoa pobre existe essa indiferença a que você se refere…
Existe muita disparidade.
O que você acha disso?
Tem muito cara entrando na cadeia aí. Tem uns ricos dançando também. O Cacciola foi trazido de volta e vai sentar uns treze anos, não sei. O deputado também dançou, nessa história de milícia. Não tem fiança, vai ficar lá guardado. Mas tem umas contradições. Tem umas leis que deixam muita gente impune, muita coisa passa batido. Mas incrivelmente, ao mesmo tempo, parece que existe uma justiça dando conta da sociedade e de algumas figuras já bem famosas e conhecidas como intocáveis, que tem ruído. É esperar para ver o que acontece.
É verdade que você pensou em distribuir de graça o América Brasil na saída dos shows?
Eu, na verdade, gostaria. Posso dizer que sou um artista independente, mas que ainda vive dentro da configuração que a indústria estabeleceu. Ainda trabalho com as regras que estão estabelecidas. Lancei e prensei o disco, mas só poderia distribuí-lo gratuitamente se tivesse os recursos para pagar os direitos de alguns autores, de músicas que tocaram. O máximo que eu pude fazer foi sair com esse custo, de R$ 10,00. Em alguns casos a pessoa comprou o ingresso e ganhou o disco. Em outros, foi vendido a R$ 10,00 ou coisa assim. Eu inverti a situação: geralmente você lança o disco, manda pra rádio, faz toda a imprensa e aí sim faz os shows. A receita diz que é assim. Mas eu fiz primeiro a turnê. Aí apareceu a EMI, lancei um disco em Portugal primeiro. Engraçado isso. Eu queria sair com os shows antes.
Você baixa mp3? Muitos artistas reclamam dos downloads…
Acho que eu sou um dos caras mais “baixados” nessa parada, cara. Acho que eu sou um dos caras mais “baixados” desse negócio aí (risos).
Mas não parece se preocupar muito com isso…
Não….O compartilhamento não é um problema. O problema é a pirataria. Se você achou um som, gostou e quer mostrar pra sua namorada, você tá compartilhando com ela, não é? Agora se você pegar e vender pra ela, você está pirateando, meu velho. Aí não anda, você tá quebrando uma firma, uma fonte de divisas pra galera. É uma questão de consciência, educação. Se a gente entrar nesse mérito…
Como foi gravar o Tarantino’s Mind? De onde surgiu a idéia do curta?
Eu adoro aquele trabalho, o Selton é um gênio, um dos grandes atores desse país. Ele… Só um minuto. (NR: Seu Jorge interrompe a conversa para brincar com a filha de cinco anos).
- …ô minha filha linda, gostosa! Que beijo bom! Vai tomar banho, vai?
Pô, tô aqui num parque aquático com a família. Minhas crianças estão de férias e eu vim dar um pouco de infância pra minha filha porque, pô… Ela só tem cinco anos, a outra tem dois, e elas precisam de infância agora.
Deve ser ruim quando a família fica longe…
Eu sempre fico muito longe, às vezes por causa de cinema eu me afasto um mês, dois. A minha menor tem dois anos de idade, não agüenta, não entende. Não digo que é ruim. É necessário que seja sim. É maravilhoso – claro, seria muito melhor se eu pudesse estar com toda a estrutura que permitisse carregá-los. Mas mesmo assim seria duro, sabe? Porque entrar numa turnê de 30 dias… Num dia você tá em Houston, no outro em Austin, Dallas, Madison. A cada dia num lugar com criança pequena e tal… é caótico. Mesmo com toda aquela pompa, ainda assim é uma fadiga.
Sei…
Na Espanha, na hora do almoço, tudo fecha. (inconformado) Na hora do almoço! Tudo fechado! Não tem cabimento isso, velho… O comércio eu até entendo, mas o restaurante, na hora do almoço, eu não entendo, não.
Voltando ao Tarantino’s Mind…
Tem dois meninos lá da (produtora) 300ml que me ligaram, o Felipe e o Bernardo. Eles passaram o roteiro, engraçadíssimo. Foi muito divertido fazer, e eu fiquei muito feliz pelo sucesso que esse trabalho fez numa cena completamente alternativa, na internet. Aquilo não passou em cinema nenhum, mas passou no MoMa, em Nova Iorque. Chegou à mão do Tarantino, ele curtiu o filme. E os caras (Felipe e Bernardo) foram trabalhar numa companhia americana. Porque sabe como é, velho: os caras viram que o maluco é bom, e não deixa ficar parado.
